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Jovens deixam cidade do interior da Bahia em busca de formação superior
  • Jovens deixam cidade do interior da Bahia em busca de formação superior

  • Postado em 30, maio 2016 por: Anderson Ferreira

Oitenta milhões de brasileiros vivem fora das cidades onde nasceram, o equivalente a quase 40% da população. A informação foi divulgada, no final do ano passado, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre os motivos que levam à mobilidade pelo país está a educação. É que é cada vez maior o número de estudantes que deixam a família em busca do sonho de fazer um curso superior. Luara Moniele Pires, 24, deixou o pequeno município de Malhada de Pedras, na região sudoeste da Bahia, em 2012, para cursar Medicina, na Universidade Federal de São João Del-Rei (UFSJ). “A mudança de estado, o fato de não poder estar em casa com tanta frequência, tudo isso é difícil. Mas, como toda mudança, essa também foi um processo e você vai se adaptando aos poucos”, diz ela, que já morou longe da família, antes de se mudar para Divinópolis, em Minas Gerais.

Luara Moniele está no oitavo semestre de Medicina e se diz encantada pela futura profissão. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

A rotina de Luara é bem corrida. Pela manhã, ela sai de casa, onde mora com mais três colegas de sala, pega um ônibus e, num trajeto de 15 minutos, chega à universidade. De lá, sai no final da tarde. “Os horários variam, mas geralmente ocupam o dia todo mesmo. Além disso, a gente sempre se envolve com alguma atividade complementar”, comenta a estudante do oitavo semestre, que se diz encantada pela futura profissão. “É um constante aprendizado, e não apenas com os livros, mas um aprendizado com as pessoas, cada uma com suas experiências e ensinamentos”, explica.

Para Antônio Lúcio Caetano, 24, também não foi fácil deixar a família, em 2011, e encarar uma realidade diferente da que vivia no interior da Bahia. “Deixei minha cidade por não existir o curso que queria nas universidades públicas próximas e, mesmo se trabalhasse, não seria possível pagar o curso em uma particular, que é muito caro, fora outros gastos que eu teria”, conta o estudante, que está no oitavo semestre de Engenharia Civil, na Universidade Paulista (UNIP) em Jundiaí, São Paulo. Desde o quinto semestre, ele financia o curso pelo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), criado pelo governo federal, em 1999, e que, hoje, garante a permanência no ensino superior de dois em cada cinco estudantes de instituições privadas. “Sinto que nasci para isso. O curso me agregou valores e me apresentou novas formas e perspectivas para se empreender num mercado cada vez mais exigente”, comemora Antônio, que mora sozinho, no município de Cajamar, distante 20 km da universidade.

“Sinto que nasci para isso”, diz o estudante do oitavo semestre do curso de Engenharia Civil, Antônio Lúcio. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

“Sinto que nasci para isso”, diz o estudante do oitavo semestre do curso de Engenharia Civil, Antônio Lúcio. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Próximo a se formar, o estudante sonha em ter a sua própria empresa e, quem sabe um dia, voltar a morar em Malhada de Pedras, onde nasceu.  “É o desejo de a grande maioria poder voltar e colher os frutos de todo o seu esforço na sua terra natal, próximo da família”, completa.

Longe de casa, o apoio da família é fundamental para os universitários, que vivem entre a correria dos estudos e a expectativa pelo mercado de trabalho. “A minha família me ajuda de todas as formas, principalmente transmitindo amor, tranquilidade e apoiando em todos os momentos”, responde Luara. A mãe dela, Maria Leide Pires, 50, fala das dificuldades de estar longe da filha mais nova. “Já chorei muito e a preocupação é constante. Falo com ela várias vezes ao dia. Apesar da distância, procuramos ser presentes, não damos espaço para que se sinta sozinha, mas sempre deixamos claro que estamos aqui”, declara a mãe da jovem, que tem outros dois filhos.

Depois da universidade

De acordo com o IBGE, em 2014, apenas 13,1% dos brasileiros tinham curso superior. No ano anterior, esse percentual era de 12,6%. O número ainda é pequeno, levando-se em consideração o tamanho da população do Brasil e se comparado à realidade de outros países. Lucinara Fernandes, 25, faz parte dessa estatística. Formada em Engenharia de Produção, pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), Lucinara saiu, em 2009, de Malhada de Pedras para estudar em Ilhéus, no litoral baiano, onde mora até hoje. Há pouco mais de um ano, ela trabalha como analista de planejamento logístico na multinacional francesa Barry Callebaut, a maior fabricante de chocolate do mundo, que tem três fábricas no Brasil. “Sou realizada com a profissão que escolhi, pois me sinto bem e confortável executando minhas atividades industriais, voltadas para o funcionamento de uma fábrica que atua no mercado mundial”, comemora a engenheira, que credita o sucesso que tem à formação superior.

Formada em Engenharia de Produção, Lucinara Guimarães trabalha, em Ilhéus, na maior fabricante de chocolate do mundo. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Formada em Engenharia de Produção, Lucinara Fernandes trabalha, em Ilhéus, na maior fabricante de chocolate do mundo. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Feliz na profissão, Lucinara pensa, agora, em buscar novos conhecimentos para aprimorar ainda mais o trabalho dela. “Tenho como meta desenvolver minha carreira profissional, buscando melhores capacitações através de cursos e especializações, que irão contribuir para o meu crescimento e reconhecimento profissional na indústria”, planeja.

O curso superior também foi importante para a arquiteta Helaine Araújo, 22, que mora na capital baiana. “Ingressar na universidade abriu um novo mundo de oportunidades e possibilidades para mim, alterando por completo minha percepção do mundo e da sociedade em que vivo, além de mudar minha vida social e profissional. Com essa formação, agora posso exercer a profissão que sempre sonhei e almejar novos sonhos e conquistas”, diz ela, que é formada pela Universidade Salvador (UNIFACS), através do Programa Universidade para Todos (Prouni). Até o segundo semestre de 2014, o programa do governo federal, criado em 2005, ofereceu mais de 1,4 milhão de bolsas em instituições privadas, sendo 70% integrais.

Depois de deixar a universidade, a arquiteta Helaine Araújo montou a própria empresa e trabalha no apartamento onde mora, em Salvador. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Depois de deixar a universidade, a arquiteta Helaine Araújo montou a própria empresa e trabalha no apartamento onde mora, em Salvador. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Depois de sair da faculdade, no final do ano passado, Helaine criou a própria empresa – Rabiscos Arquitetos Associados – em pareceria com o namorado dela, que também é arquiteto. “As grandes empresas de arquitetura, que possuem porte para contratar profissionais, nunca oferecem o piso salarial da profissão. Conhecendo essa realidade, foi que decidi, antes de concluir o curso, que iria montar meu próprio escritório”, explica a arquiteta, que trabalha no apartamento onde mora. O negócio ainda possui poucos clientes, a maioria deles do interior do estado. “Estamos concentrando nossos incentivos no interior pensando justamente em, no futuro, transferir a Rabiscos para Vitória da Conquista, ficar próximos de nossas famílias e adquirir uma qualidade de vida melhor”, planeja a jovem arquiteta, que é natural de Malhada de Pedras.

Ao contrário de Lucinara e Helaine, o farmacêutico Erlan Canguçu, 26, após cinco anos na universidade, encontrou a oportunidade de voltar à cidade dele para trabalhar. “Acho que é o ideal, deveria ocorrer com todos os profissionais, principalmente de cidade pequena, porque é onde poucas pessoas tendem a buscar o curso superior, e o desenvolvimento de nossa cidade depende disso”, afirma Erlan, que se formou pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Vitória da Conquista. “Eu penso que quando a gente trabalha por nossa cidade, o trabalho é feito com mais amor. No meu caso, que trabalho na área da saúde, eu estou aqui ajudando o meu vizinho, são as pessoas que, desde a infância, convivem comigo. Então, isso acaba sendo um estimulante maior, além de profissional, também pessoal”, completa o farmacêutico, que é coordenador da assistência farmacêutica do município de Malhada de Pedras e responsável técnico em uma drogaria da cidade. “Aqui tem bastante trabalho a ser feito e eu posso colaborar muito”, conclui.

Após cinco anos na universidade, o farmacêutico Erlan Canguçu encontrou oportunidade de trabalho na cidade onde nasceu. Foto: Anderson Ferreira

Após cinco anos na universidade, o farmacêutico Erlan Canguçu encontrou oportunidade de trabalho na cidade onde nasceu. Foto: Anderson Ferreira

 

Censo da educação superior
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O Ministério da Educação divulgou, no final do ano passado, os dados referentes ao Censo da Educação Superior 2014, que oferece à comunidade acadêmica e à sociedade em geral informações detalhadas sobre a situação e as grandes tendências do setor. Segundo o levantamento, mais de 3,1 milhões de alunos ingressaram em cursos de graduação, naquele ano. Desse total, mais de 2,5 milhões em instituições privadas. Se comparado ao ano anterior, houve crescimento de 13,4% no número de ingressos. A rede privada foi a que mais cresceu, 15,9%; enquanto a rede pública teve um salto de 3,1% no mesmo período. Em dez anos (2004-2014), o acesso ao ensino superior, no Brasil, praticamente dobrou. (ver gráfico acima)

Em 2014, de acordo com o Censo, foram oferecidas mais de 8 milhões de vagas em 32.878 cursos de graduação de 2.368 instituições públicas e privadas do país. O levantamento mostrou ainda o número de concluintes da educação superior: foram mais de um milhão em 2014. Na comparação com o ano anterior, o número de concluintes na rede pública aumentou 5,4%; já na rede privada a variação foi um pouco menor, 3,1%.

Para o pedagogo e professor Cláudio Nunes, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), o crescimento no acesso ao ensino superior deve-se às políticas públicas educacionais. “De um lado, as políticas públicas ofereceram mais vagas nas instituições de ensino superior, por meio da ampliação do número de instituições formadoras e do número de vagas em cada uma delas; por outro lado, a população manifestou interesse em responder ao chamado das políticas públicas e, efetivamente, tem ingressado e concluído sua formação em nível superior”, explica.

Apesar dos avanços, o professor critica a redução do investimento de recursos públicos em educação superior no Brasil, principalmente nos últimos dois anos, e afirma que é necessário eleger a educação como prioridade. Em 2015, o corte no Ministério da Educação ultrapassou os R$ 9 bilhões para todos os níveis de ensino. Para este ano, o governo já anunciou novas reduções. “As políticas públicas devem manter o nível de crescimento alcançado nos últimos 10 a 12 anos, de modo que a população mantenha o forte desejo de cursar o ensino superior, como tem ocorrido. Além disso, o crescimento do número de instituições formadoras deve ser acompanhado de políticas de melhoria da qualidade dessas instituições e da formação nessas realizadas”, finaliza Nunes.

 

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Natural de Malhada de Pedras, é jornalista pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e pós-graduado em Comunicação e Marketing em Redes Sociais, pela Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC).



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