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Seca atinge mais de seis mil pessoas em Malhada de Pedras, no sertão baiano
  • Seca atinge mais de seis mil pessoas em Malhada de Pedras, no sertão baiano

  • Postado em 29, mar 2017 por: Anderson Ferreira

A chuva desta quarta-feira (29) trouxe alegria para os agricultores de Malhada de Pedras, no sudoeste baiano, mas, desde o ano passado, a seca e o calor forte do semiárido pareciam ter tirado a esperança do sertanejo. Nos últimos 12 meses as consequências da estiagem causaram muitos prejuízos para o município de quase nove mil habitantes. Na fazenda Mucambo, a 9 km da área urbana da cidade, desde dezembro não chovia o suficiente para encher os reservatórios. “A situação aqui está muito difícil, porque a chuva foi pouca e a gente reservou pouca água”, conta a agricultora Maria Aparecida Pereira, 44, moradora da localidade, uma semana antes de voltar a chover no município.

De outubro a março é o período mais chuvoso na Bahia, e a previsão era de que, nesse período, chovesse de 600 a 700 milímetros em Malhada de Pedras, no entanto, o pouco que choveu não atingiu os 250 milímetros, menos da metade do esperado para essa época.

Como sinal da seca, o solo cascudo tomou o lugar de onde antes se via água. Muitas famílias dependiam da água dessa lagoa, na fazenda Mucambo. Foto: Bernardo Melo Franco

Devido à seca na região, caminhões da Operação Pipa, comandada pelo Exército Brasileiro, abastecem as quase 70 famílias do Mucambo. Maria Aparecida também está na fila para receber a água, pela primeira vez, este ano. “Uma pipa é dividida para três a quatro casas”, conta a agricultora. Cinco caminhões-pipa levam água potável para 63 comunidades do município. Mais de 750 famílias são atendidas pela operação, que tenta aliviar o sofrimento causado pela seca.

Sem água, a plantação da família de Maria Aparecida foi toda perdida. “Do pouco que nós plantamos, não colhemos nada. O milho mesmo nem cresceu”, diz. De acordo com a Secretaria Municipal de Agricultura, mais de 90% da lavoura de todo o município foram prejudicadas pela falta de chuva.  Os animais também sofrem as consequências da seca, que, segundo a agricultora, é uma das maiores que já viu. Na falta de alimento para o gado, ela até pensa em vender os animais, mas quem disse que acha comprador. “Nem tem valor pra vender”, acrescenta.

Na casa do agricultor José Armando Silva, 54, também na fazenda Mucambo, a solução foi comprar água para os afazeres domésticos e a higiene pessoal dele, da esposa e da única filha do casal. “A água para o consumo ainda tem bastante na cisterna, agora para tomar banho e lavar roupa tem que comprar ou o Exército que coloca”, explica. Por uma pipa de oito mil litros, o agricultor pagou R$ 80, mas hoje o valor já é maior.  Por causa da estiagem, ele nem cria gado, tem apenas algumas galinhas e porcos no quintal de casa. Tudo o que plantou também foi perdido.

Famílias da fazenda Barra da Cerquinha, distante 8 km do centro da cidade, dependem da água dessa cacimba de água amarelada. Foto: Bernardo Melo Franco

O rio do Antônio, que por muito tempo foi a principal fonte de abastecimento do município, fica perto da casa do senhor José Armando. No entanto, por causa da seca e da ação humana, já tem alguns anos que não corre água. Até as cacimbas abertas pelos moradores da região, muitas vezes, não dão água. Com a seca do rio, a população urbana é agora abastecida pela barragem de Cristalândia (Brumado), por meio de uma adutora com mais de 36 km de extensão, inaugurada em 2013 pelo governo do Estado, com custo de R$ 2 milhões.

Malhada de Pedras é um dos 217 municípios baianos que decretaram estado de emergência este ano devido à estiagem prolongada. Mais de seis mil pessoas foram afetadas pela seca na cidade, do ano passado até hoje. Com o decreto, que entrou em vigor no final de março e tem duração até o mês de setembro, a Prefeitura pode solicitar apoio da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) para iniciar as medidas de socorro e assistência à população.

“Nós esperamos que os governos estadual e federal possam nos ajudar com carros-pipa. Só que teremos que fazer um estudo para saber onde pegar água, porque não temos água no município, não temos açudes cheios de onde podemos tirar água para transportar para outras comunidades”, explica o secretário municipal de agricultura, Maécio Roberto Silva. “Esperamos, também, a liberação de recursos para podermos abrir mais tanques, fazer aguadas, abrir mais barreiros de trincheiras e construir mais cisternas de produção, porque nós temos que ter uma capacidade melhor para poder responder a esses desastres naturais”, completa o secretário. Ainda não se sabe de quanto será o recurso para o município implementar ações de combate à seca.

Na comunidade Jatobá, a pouco mais de 13 km da área urbana, a lagoa está praticamente seca. Foto: Bernardo Melo Franco

Segundo o relatório do município enviado à Sedec e a que esta reportagem teve acesso, a barragem do rio do Antônio está com menos de 10% da capacidade total.  Alguns açudes estão praticamente secos e outros, que ainda possuem um pequeno volume de água, em menos de 60 dias também podem ficar vazios. Nos últimos 12 meses, os prejuízos à agricultura da cidade ultrapassaram R$ 1,8 milhão. As maiores perdas foram das culturas do feijão, do milho e da mandioca. Para a produção de leite e a venda de animais, os prejuízos foram de R$ 500 mil, informa o relatório.

Como se não bastasse, três caminhões-pipa da Prefeitura estão parados por falta de pneus. A reportagem solicitou uma posição da Administração Municipal sobre o porquê de os carros ainda não terem sido consertados e quando vão voltar a funcionar, mas, até o momento, não tivemos resposta.

 

A barragem da comunidade Cachoerinha, que fica a 5 km da sede do município, também está seca. Daqui, caminhões-pipa pegavam água para abastecer várias comunidades do município. Foto: Bernardo Melo Franco.

Previsão de chuva

Para o professor Rosalve Lucas Marcelino, da Estação de Meteorologia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), campus de Vitória da Conquista, a estimativa de chuva para este semestre, na região sudoeste, não é animadora. “Estamos entrando no período de baixas temperaturas e umidade, com diminuição das chuvas, que deve se estender para além do mês de agosto”, diz o professor. “Somente no segundo semestre deste ano é que há possibilidade de chuvas regulares”, acrescenta.

A escassez de chuva, segundo Marcelino, é uma decorrência da passagem, nos dois últimos anos, do fenômeno chamado El Niño, que é o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico. Esse fenômeno provoca o desequilíbrio na distribuição de chuvas por todo o país. “Entre 2015 e 2016, nós tivemos uma forte atuação do El Niño, uma das mais fortes dos últimos tempos, inclusive. E uma das marcas desse fenômeno é acentuar a quantidade de chuvas onde já chove muito, assim como o contrário também”, explica.

Mas, esta semana, a mudança no tempo em Malhada de Pedras trouxe esperança para o sertanejo. De acordo com a previsão, a chuva deve continuar nos próximos dias.

Na fazenda Lagoa Comprida, a 18 km de Malhada de Pedras, a quarta-feira (29) amanheceu assim, para alegria dos agricultores. Foto: Evânio Oliveira.

Confira aqui como fica o tempo na cidade.

 

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Natural de Malhada de Pedras, é jornalista pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e pós-graduado em Comunicação e Marketing em Redes Sociais, pela Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC).



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