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“Sobre galhos, correntes e vagões”, texto finalista da OLP 2016
  • “Sobre galhos, correntes e vagões”, texto finalista da OLP 2016

  • Postado em 21, dez 2016 por: Anderson Ferreira

foto-pro-textoO Ministério da Educação, por meio do Programa Escrevendo o Futuro, divulgou, nesta terça-feira (20), os textos dos 152 finalistas da 5ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa. O malhada-pedrense Nicolas Souza, de 12 anos, foi um dos 38 finalistas da categoria Memórias Literárias. O texto dele foi baseado na entrevista feita com o senhor Miguel Alves Pereira, de 68 anos, avô de Nicolas. Leia o texto, na íntegra:

 

Sobre Galhos, correntes e vagões

Quem vinha pela estrada do município de Malhada de Pedras, Bahia, avistava de longe a morada da família Pereira, da qual eu, Miguel, sou o caçula de vinte e cinco filhos.

Morávamos em uma casa que só de lembrar me embaraço na saudade. Às vezes, fico pensando como uma casa tão simples e sem exageros poderia abrigar tanta felicidade, tanto amor. A construção era toda feita de adobe, coberta de telha de cerâmica e com onze cômodos, o piso de ladrilhos de barro.

O “terreiro” era aberto, lá tínhamos um poleiro onde criávamos algumas galinhas.

Ali mesmo, em nosso quintal, corria o Rio do Antônio – hoje, praticamente morto –, mas houve época em que bastava abrir a janela do fundo que poderia contemplar sua perfeição. Para mim, aquela janela era como um portal, onde quem o adentrava sentia a natureza na própria pele, eu não me cansava de acordar todas as manhãs, bem cedo, só para ouvir o som daquela correnteza, aquele espetáculo me fascinava! Eu me sentia privilegiado por ter um rio, logo ali, no fundo da minha casa. Todos os dias eu me banhava naquelas águas, já brinquei muito nelas, guerras aquáticas eram comuns, nos divertíamos à beça em nosso quintal, mágico quintal!

As águas daquele rio, utilizávamos para tudo. Os homens tinham a tarefa de buscá-las em cambões (dois baldes sustentados por um pedaço de pau) e as mulheres, na maioria das vezes, usavam um balde sobre a cabeça – que eu, por sinal, ficava intrigado com tal equilíbrio! Dali toda nossa riqueza se originava, era como se fosse um pedaço de nós.

Naquela época não existiam os problemas de hoje. Lembro-me da maior enchente que já ocorreu: o nível do rio aumentou tanto, que cobriu uma ponte de sete metros! Só podíamos atravessá-lo segurando em uma corda amarrada de uma margem à outra, pois a correnteza era muito forte. Hoje fico triste em perceber que do som daquelas fortes correntes sobrou apenas pequenos chiados das águas que passam aqui por aqui ou por ali.

Ao lado do rio uma linha férrea cortava a região. Ouvir o apito ao longe fazia parte da nossa rotina. Nós dormíamos e acordávamos com o barulho do trem. Naquela época, ele passava por ali entre três e quatro vezes por dia e sempre corríamos loucamente para vê-lo. Às vezes ele atrasava (ou éramos nós que chegávamos antes, não sei), mas quando passava por nós, atirávamos pedras nos vagões só para ouvirmos o barulho ecoando caatinga acima.

De um lado do terreiro, pés de umbu, manga e pinha faziam parte do pomar. Eu e meus amigos subíamos naquelas árvores, ficávamos ali pegando frutas até nos lambuzarmos. Perdíamos a noção do tempo naqueles galhos.

Meus brinquedos eram todos feitos por mim mesmo: bodoques, carrinhos e bolas eram os preferidos. Eu era um tanto traquino: gostava de derrubar os outros nos carreiros no meio dos matos, amarrando uma corda até o outro lado para que tropeçassem, diversão que me rendia bons castigos.

Apesar das brincadeiras, sempre tive horário de trabalho. Desde os 8 anos, meu pai me levava para a roça. As atividades pequenas eram minhas, depois que fui acostumando, comecei a usar enxada e capinar, logo já estava na lida como o resto da família. Apesar do cansaço e exaustão, eu sempre gostei de ver os frutos de nosso suor serem colhidos e postos em nossa mesa.

Na época, a colheita era uma festa! Todos se reuniam e se ajudavam. Cada um tinha uma função essencial: colher, transportar, bater os grãos, peneirá-los e colocá-los para secar. Éramos todos como pequenas engrenagens que compunham um grande motor, que graças a Deus, funcionava a todo vapor.

Hoje, não consigo esquecer daqueles tempos que vivíamos tão felizes e com tão pouco. É até difícil de acreditar que coisas simples eram o bastante para nossas vidas e atualmente já não são sufi cientes. Hoje conto as histórias da minha infância para meus filhos e netos, dessa forma, sinto como se aquele rio ressuscitasse, como se os sons da sua correnteza e das pedras atiradas por mim nos vagões dos trens estivessem vivos, ressoando até agora em minha mente. Assim, desejo que eles ecoem no coração de todos que ouviram ou ouvirão minha história.

 

Aluno: Nicolas Pereira Souza

Professora: Karine da Silva Oliveira Moreira

Escola: Centro Educacional Rui Barbosa – Malhada de Pedras (BA)

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Natural de Malhada de Pedras, é jornalista pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e pós-graduado em Comunicação e Marketing em Redes Sociais, pela Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC).



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